Como funciona a prostituição legalizada no Red Light District em Amsterdam

O Red Light District é uma das atrações mais famosas de Amsterdam. Ele é chamado de Red Light District (Distrito da Luz Vermelha) ou De Wallen, por causa das luzes que ficam em cima das vitrines das prostitutas. Mas além de ser um escândalo que escancara a prostituição que escolhemos fingir que não existe no resto do mundo, o bairro é um lembrete de que a Holanda é muito mais tolerante e organizada que o restante dos países. Descubra como funciona a prostituição legalizada no Red Light District em Amsterdam!

A prostituição de Amsterdam envolve homens, mulheres, travestis… Mas como a porcentagem de mulheres que trabalham neste mercado é incrivelmente maior que os demais, vamos usar termos no feminino para representar os trabalhadores do sexo de Amsterdam. Os homens trabalham mais como acompanhantes e não trabalham em vitrines.

Saiba mais: Holanda: o que fazer em Amsterdam.

Como tudo começou

Como qualquer negócio, tudo começou pelo público usuário do serviço. Amsterdam sempre foi uma cidade portuária de enorme importância para a Europa. Como toda cidade portuária, recebia muitos barcos e, com eles, muitos homens. Estes homens usavam e abusavam da prostituição em Amsterdam, assim como ainda acontece hoje pelo resto do mundo.

A prostituição chegou à um nível extremo e prejudicial para a cidade. Foi então que o governo proibiu a prostituição de rua. Esse foi o grande marco do início das vitrines holandesas. Para burlar a lei sem perder os clientes, as prostitutas começaram a trabalhar em vitrines. As vitrines nada mais são que portas de vidro. Desse forma, eles não estariam na rua, que era proibido, mas ainda eram vistas pelos clientes.

A legalização da prostituição na Holanda ocorreu justamente para tentar proteger as profissionais e reduzir as infrações, como exploração de menores de 18 anos, estrangeiros ilegais, abusos físicos e psicológicos, tráfico humano, etc. Sem legalizar a prostituição como uma profissão, fica quase impossível evitar estas infrações e ter um controle sobre o que acontece no ramo do sexo.

A prostituição já acontece em todo o mundo há milênios. O que a Holanda fez foi dar uma chance para essas pessoas de trabalharem de forma mais digna e segura. Vale lembrar que a profissão não é estimulada ou passada uma imagem diferente da realidade. Ela existe hoje pelos mesmos motivos que sempre existiu.

Saiba mais: Holanda: o que fazer em Rotterdam.

A legalização da prostituição na Holanda

A prostituição é legalizada em toda a Holanda, não apenas Amsterdam. Apesar do Red Light District e outros bairros menores da capital levarem a fama por suas vitrines, outras cidades da Holanda também passam por uma situação parecida, mas com menos profissionais e sem grande foco de turismo.

A legalização da prostituição como conhecemos hoje na Holanda aconteceu no ano 2000. Em 1830, no entando, a prostituição já era legalizada, mas até 1980, não existiam leis de proteção contra a exploração dos homens e mulheres que trabalhavam com sexo. Em 2000, as leis se alinharam e criaram o sistema que vigora até hoje.

As leis que abrangem a prostituição na Holanda ainda sofrem mudanças para tentar englobar as meninas com menos de 18 anos (que legalmente não podem trabalhar como prostitutas) que acabam sendo exploradas, como em qualquer outro lugar e combater o tráfico humano, também comum no resto do mundo.

Como funciona a prostituição na Holanda

No país, qualquer negócio relacionado à prostituição, deve ser legalizado junto à prefeitura e cumpre requisitos legais como qualquer outro negócio. A cafetinagem, inclusive, é proibida por lei. As únicas pessoas que podem lucrar diretamente com a prostituição são as próprias prostitutas. O objetivo é diminuir a exploração sexual e fornecer melhores condições para as profissionais.

Elas são cadastradas e são consideradas empresárias individuais. Pagam impostos, declaram imposto de renda e possuem alguns direitos da profissão. Por exemplo, periodicamente devem visitar um médico e fazer os exames e tratamentos necessários gratuitamente, tem acesso à psicólogos quando precisam e o governo tenta focar também na segurança das meninas. Elas podem relatar qualquer abuso e pedir ajuda sem se preocupar com os julgamentos e ilegalidades, já que estão dentro da lei.

A polícia fiscaliza o ambiente de trabalho e reporta qualquer violação, como profissionais com menos de 18 anos ou em situação ilegal no país. Afinal, só podem trabalhar legalmente com prostituição na Holanda cidadãos europeus acima de 18 anos. Os pedidos de abrir novas vitrines passam por avaliação e podem ser negados se for um distúrbio para a vizinhança. Segue a mesma lógica de um bar com música alta durante a noite, por exemplo.

Saiba mais: O que fazer em Eindhoven: o centro tecnológico da Holanda.

Como funciona a prostituição legalizada no Red Light District em Amsterdam?

O Red Light District é um bairro focado na prostituição legalizada e em outras atrações ligadas a sexo. Aqui você encontra o Museu do Sexo, o Museu da Prostituição casas de show erótico e outras coisas mais.

Museu da Prostituição.

Casa de shows eróticos.

As vitrines estão espalhadas pelas ruas e são divididas em duas categorias: as luzes vermelhas e as luzes roxas. Acima de cada porta da vitrine tem uma lâmpada com uma dessas cores. As vermelhas sinalizam mulheres e as luzes roxas sinalizam travestis.

Estes profissionais são autônomos e alugam as salas e vitrines. É um ramo bem lucrativo também. As vitrines já existem fixas naqueles pontos e as meninas alugam por diária. As vitrines que ficam nas ruas principais são bem mais caras que as das ruas laterais. Consequentemente o preço dos programas também é diferente.

A média de valores que o nosso guia do Free Walking Tour nos disse, era em torno de EUR 50 por 20 minutos. Isso tudo é negociado com as meninas antes de entrar na sala delas. Você negocia preço, tempo e atividade previamente. Paga primeiro e recebe o serviço combinado depois. O uso de preservativo é obrigatório e as meninas não negociam sobre isso. Qualquer descumprimento da parte do cliente ou ameaça e é denunciada imediatamente pelo botão de pânico que fica dentro de cada sala (pelo menos essa é a ideia).

As meninas ficam vestidas com roupas provocativas, fantasias ou apenas calcinha e sutiã mesmo. Elas fazem de tudo para chamar a sua atenção. Batem as portas (às vezes bem alto mesmo – levei um susto com isso rs), fazem sinal e muito contato visual.

Você encontra com a gente sempre as melhores dicas sobre nômades digitais e sobre viajar barato! Coloque seu nome e e-mail abaixo para receber gratuitamente novas publicações do Diário de Navegador em sua caixa de entrada! 😀

Não vai ficar fora de dessa, né?

Porque o Red Light District é uma atração turística?

O Red Light District (chamado de De Wallen) acabou se tornando uma atração por ser único no mundo. Mesmo com outros pontos na Holanda, nada chega ao tamanho e dimensão do De Wallen, o Red Light District de Amsterdam. As ruas estão cheias de turistas a noite, mesmo no inverno. Casais, grupos de amigos, pessoas sozinhas. Você vê muita gente chocada, muitos rindo, muitos entrando nas salas e usando o serviço.

Aqui vale um alerta muito importante. É PROIBIDO TIRAR FOTO DAS VITRINES. 

Se as meninas acharem que você está tirando foto delas (mesmo que estejam tirando foto de outra coisas), elas saem enfurecidas das vitrines e vão atrás de você. Vão gritar, xingar e, como costuma acontecer, vão jogar sua câmera no canal ou te assistir apagar as fotos. Na verdade, é bem justo que seja proibido. Elas estão com pouca roupa e não querem estar na mídia. Mesmo sendo legalizada a prostituição, o preconceito é o mesmo do resto do mundo.

Na nossa primeira noite na cidade, visitamos o bairro (estávamos hospedados bem ao lado, então fomos lá todas as noites) e eu levei um susto. Você escuta as pessoas contando, mas só entende mesmo quando chega lá e vê. Tive um grande conflito entre ver o lado positivo da legalização para as prostitutas e ver e acompanhar a objetificação das mulheres no bairro. No final dos meus 4 dias na cidade acabei me acostumando um pouco mais e após conversar com a Mariska Majoor, entendi melhor os benefícios da legalização.

Saiba mais: Conheça Maastricht: a incrível mistura romana da Holanda.

Monumento às prostitutas (Belle)

Ali mesmo no Red Light District está a igreja mais antiga de Amsterdam. É muito engraçado pensar na igreja sendo vizinha do maior ponto de prostituição do país, mas na Holanda vemos de tudo. A igreja é a Oude Kerk e já falamos dela no post de Amsterdam.

“Respeite as profissionais do sexo pelo mundo todo”.

Em frente a igreja, está o Monumento às Prostitutas, uma dedicação a estas profissionais do mundo todo. O monumento foi colocado em 2007 pelo Centro de Informação de Prostituição. Ao lado dela, também ao lado da igreja, tem um seio de bronze no chão que também faz parte da homenagem.

Saiba mais: O que conhecer em Haia: um valioso daytrip de Amsterdã.

Entrevista com Mariska Majoor

Quem é Mariska Majoor

Durante nossa estada em Amsterdam, conversamos com a Mariska Majoor em seu escritório próximo a Oude Kerk. Ela trabalhou nas vitrines por muito tempo e hoje coordena o Centro de Informação da Prostituição, voltado para os direitos da profissão no país.

Ela nos conta que quando saiu das vitrines, sentiu que precisava fazer alguma coisa com a experiência que teve nos seus anos trabalhando como prostituta. Mariska começou a trabalhar nas vitrines ainda menor de idade (e ilegal), com 16 anos. Ela largou o trabalho nas vitrines aos 21 anos.

Mariska nos contou como foi difícil ser uma “ex-prostituta” e como não existe abertura profissional para estas pessoas. Mesmo com a legalização, o preconceito ainda é muito grande. Ela percebeu uma grande falta de informação para as pessoas a respeito da profissão e das profissionais. Isso abre margem para o preconceito com as prostitutas. Ela passa seus dias explicando a vida na profissão para turistas, outras profissionais, políticos, clientes, mídia e para nós, do Diário de Navegador.

Ela escreveu um livroWhen sex becomes work: Everything that everyone should know about sex work” (Quando o sexo vira trabalho) sobre os 22 anos desde que ela largou as vitrines e começou a trabalhar com o Centro de Informação da Prostituição. Ela escreveu o livro há 16 anos, mas reescreveu e lançou apenas em dezembro de 2015. O livro também aborda a vida nas vitrines e como funciona o trabalho e o tratamento aos clientes.

A prostituição pelo ponto de vista de Mariska Majoor

Mariska nos informou sobre as ações do governo em relação a prostituição e como foi difícil mostrar que os direitos das prostitutas são meramente direitos humanos. Ela aponta que em países onde os direitos das mulheres são negligenciados, as prostitutas não tem direito algum. Mariska reforçou a necessidade de enxergar estas mulheres como seres humanos que necessitam de direitos básicos. Em alguns países essas mulheres são presas, proibidas de se casarem ou ainda tem os seus filhos retirados de sua guarda pelo motivo da profissão.

Em relação aos direitos já conquistados, Mariska nos conta que existem organizações que auxiliam as profissionais com aulas de defesa pessoal, aulas de inglês, melhores condições de saúde, etc.

Uma coisa que nos chamou a atenção no discurso de Mariska, foi como ela coloca estas profissionais de uma forma diferente da que estamos acostumados a pensar. Para ela, as profissionais do sexo não são sempre pessoas com problemas familiares ou difíceis condições de vida. Para ela, é injusto olhar para uma prostituta e presumir a vida que ela tem. Ao mesmo tempo, ela aponta que não gosta de chamar a prostituição, por mais que seja uma profissão, de normal. Ela considera um trabalho especial.

Mariska reforçou a necessidade da legalização da prostituição em outros países, já que a prostituição existe e sempre existirá. Mas quando está na ilegalidade, as pessoas caem nas mãos de criminosos, exploradores e as condições humanas  e de trabalho são extremamente negligenciadas.

Relatos profissionais de Mariska

Perguntamos para ela alguma história que ela gostaria de compartilhar com nossos leitores. Ela começou nos explicando que a maioria das prostitutas fazem o trabalho apenas pelo dinheiro, como várias outras profissões. Uma coisa técnica, sem emoções e voltada para o ganho financeiro. Outras no entanto escolheram esta profissão por gostarem de sexo. É juntar o útil ao agradável. Ela nos contou de uma colega, por exemplo, que trabalha apenas com clientes com algum tipo de deficiência. É a forma que ela viu de contribuir para a vida dessas pessoas e ela gosta da profissão além do dinheiro.

Quando ela trabalhava nas vitrines, fazia pelo dinheiro, pelo que nos contou. Pedimos para ouvir alguma história engraçada que ela já viveu nas vitrines. Ela nos contou que tinha um cliente que a visitou algumas vezes e sempre pedia para que ela vestisse uma fralda (sim, uma fralda). Ela ainda tinha que beber muito líquido para fazer xixi na fralda e interpretar um bebê. Para Mariska, era interessante mexer com a fantasia das pessoas, mesmo não sendo o seu forte – palavras dela.


E você? O que pensa da legalização da prostituição?

Se você gostou desse post e quer dar uma olhadinha nele outras vezes, salva a imagem abaixo no seu painel de viagens no Pinterest! 😀

A Holanda está quebrando tabus há anos. Um deles, é o famoso Red Light District e a prostituição de Amsterdam. Saiba mais sobre o distrito da luz vermelha!

Lembre-se que o DDN está aberto a críticas e sugestões via Facebook, comentários e através do nosso contato direto.

Compartilhe suas ideias