Turismo consciente: o mundo já não aguenta mais o turismo predatório

Para mim, o turismo é uma das grandes maravilhas do mundo. Como turismóloga de formação, aprendi a ver potencialidades de crescimento econômico, de reconhecimento cultural e de troca entre as populações. Ao mesmo tempo, vemos com tanta frequência empresas “de fora” se apropriando de uma região, suas potencialidades e população. Pois é, não é segredo que o turismo desenfreado pode prejudicar o ritmo de várias cidades, o meio ambiente e, mais uma vez, a população local. Mas não se preocupe, navegador. A solução é o turismo consciente!

A atividade turística como conhecemos hoje, surgiu e evoluiu como uma forma de aproveitar o tempo livre quando a revolução industrial colocou os operários para trabalhar e a burguesia para chefiar. Obviamente, quem tinha esse tempo livre eram os burgueses. Naquela época, viajar se tornou artigo de luxo e desejo, como qualquer outro produto de consumo.

No entanto, para a nossa alegria, eu tenho notado nos últimos anos a popularização da atividade turística. Hoje, viajar é mais acessível do que antes. Isso tem sido um ponto muito positivo, já que o turismo é a principal fonte de renda de muitos países. Existem muito mais meios de transportes, empresas e pessoas dispostas a viajar. Claro que existem certas viagens que não deixaram de ser uma atividade de luxo. Mas hoje temos também formas diferentes de viajar, cada vez mais econômicas.

O turista e o viajante

Ao meu ver, existem dois tipos de turistas: o “turista” e o “viajante”. São pessoas muito diferentes e que interagem de forma muito diversa com o ambiente. Existem aquelas pessoas que querem ter uma experiência cultural, de idiomas, gastronômica e, claro, conhecer lugares muito bonitos e/ou diferentes. Ao mesmo tempo, existem também aqueles que querem sair da sua rotina e aproveitar para descansar, sem necessariamente haver uma troca cultural ou de idiomas ou gastronômica, por exemplo. Nenhum dos dois grupos está certo ou errado. Mas quando exageramos as atitudes dos dois, todo mundo sai prejudicado.

O “viajante”, por exemplo, pode se apropriar de uma cultura que não é sua e que ele não necessariamente respeita. O “turista”, da mesma forma, pode trazer outros danos. Normalmente é esse grupo que mais causa prejuízos para as populações, meio ambiente e sustenta a desigualdade social. É aqui que vemos, por exemplo, excursões a favelas como se fossem safáris, com direito a jipe e câmera no pescoço. Ou até mesmo visitas a zoológicos sem se preocupar com o tratamento do animal e total desconsideração ao bem material e imaterial do destino.

É importante lembrar que estamos falando de um turismo predatório extremo. Não devemos generalizar os turistas e nem a atividade como um todo. Estamos apenas falando de um problema do setor turístico no mundo.

O que o turismo predatório tem feito no mundo

Quando estive em Verona, na Itália, visitei a Arena de Verona. A Arena é maravilhosa, super antiga e cheia de rabiscos nos corredores naquelas paredes históricas. Isso mesmo. Vários turistas sem noção picharam e assinaram os nomes em uma parede histórica de um monumento histórico de uma cidade tão linda e carregada de história. Esse é o grande problema!

O mesmo aconteceu em Roma, no Coliseu. Duas americanas foram flagradas escrevendo seus nomes em uma parede do monumento. Isso já aconteceu várias vezes por lá e, para os casos do Coliseu, as penas são multas altíssimas e até mesmo alguns meses de prisão. Um russo que escreveu suas iniciais na parede, por exemplo, foi condenado a pagar 16 mil libras e a 4 meses de prisão. Confira a matéria aqui.

Às vezes nos esquecemos que o “fora da nossa casa” é a casa de alguém. Sair para viajar e curtir ao máximo sem pensar nas pessoas que vivem ali e que utilizam diariamente aquilo que nós nem prestamos atenção. A grosso modo, isso é invadir o espaço das pessoas, prejudicar a rotina de uma cidade e destruir o meio ambiente daquele lugar. É isso que o turismo faz quando não temos empatia, consciência e boa vontade.

Algumas atitudes já foram tomadas

Várias cidades já se declararam abertamente cansadas do número de turistas que recebem. Quanto a isso, devo dizer, não é responsabilidade só do turista. Envolve planejamento, infraestrutura e até mesmo a divulgação de outros destinos que também cooperam para as coisas saírem do controle.

Barcelona e Roma, por exemplo, são duas cidades onde muitos moradores acham que a falta do turismo consciente traz problemas tanto para as próprias atrações quanto para o ritmo da cidade. O trânsito está sempre congestionado e alguns turistas costumam tirar fotos sem se preocupar com as pessoas que têm uma vida ali e precisam, por exemplo, passar no passeio com um pouco mais de pressa para ir trabalhar. Em Roma está surgindo uma preocupação com as atrações muito antigas, que podem não suportar o volume intenso de visitantes.

Vaticano cheio de turistas

Vaticano cheio de turistas.

Barcelona, Espanha

Barcelona tomou uma atitude contra esse turismo em massa em 2015. Suspenderam por um ano a concessão de licenças para construção de novos empreendimentos hoteleiros. O objetivo era tomar medidas que controlassem o fluxo de turistas para que a cidade não acabasse “como Veneza”. O Hugo Tavares, do site Observador, explica muito bem a situação e ainda faz um comparativo de Lisboa, nova tendência européia. Confira o texto aqui.

Parque Guell em Barcelona cheio de pessoas

Parque Guell em Barcelona.

Paris, França

O turismo predatório em Paris também é muito intenso. A famosa Pont des Arts não suportou o peso dos cadeados e foi caindo no rio pouco a pouco. Além de poluir o Rio Sena, a cidade se viu obrigada a abrir mão do resto das grades da ponte. Elas foram substituídas por novas grades com vidro, de forma que não é mais possível colocar cadeados. Seria o final da história, mas hoje é a ponte vizinha, a Pont Neuf, que está recebendo a nova carga de cadeados dos turistas apaixonados que não conseguem resistir. Leia a nossa matéria sobre os cadeados aqui para saber o que acontecerá com os cadeados retirados!

Koh Tachai, Tailândia

A Tailândia teve um salto no turismo e entrou recentemente na lista de destinos cobiçados e também não conseguiu escapar do turismo predatório. No meio de 2016 o governo decidiu fechar a ilha Koh Tachai para os turistas. A super lotação da ilha, a poluição e o descaso com o meio ambiente chegaram ao seu limite e a ilha teve de ser fechada para dar um tempo para a natureza se recuperar do estrago humano. Confira a matéria do jornal O Globo aqui.

O famoso Caso “Veneza”

Um dos casos mais graves que temos no mundo hoje, é Veneza. Não só é uma das cidades mais visitadas do mundo, como não tem estrutura para aguentar o fluxo de pessoas e navios. A cidade afunda mais alguns centímetros todos os anos e no futuro – não muito próximo – pode deixar de existir. Mas esse não é o único problema que Veneza enfrenta.

Culturalmente a cidade está se transformando. A população veneziana está sendo reduzida para abrir espaço para hotéis e restaurantes. É muito difícil manter uma vida e uma rotina em Veneza, onde as poucas ruas que existem são apertadas e lotadas de turistas. A água dos canais está ficando cada vez mais poluída e as tradições venezianas estão cada vez mais vendidas como um produto e menos respeitadas como parte da história de um povo.

Os venezianos são prejudicados em relação à empregos (que são dados para pessoas de outros lugares e idiomas) e sofrem com a altíssima inflação dos imóveis, o que dificulta a moradia. Confira a matéria do Opera Mundi que fala sobre isso aqui.

Desde 2014 o governo italiano vem debatendo a possibilidade de fechar Veneza e limitar a entrada de turistas por dia. Além disso, pensam em dar prioridade para turistas que ficam mais tempo e não fazem apenas aquele bate e volta, já que muitos deles se hospedam nas cidades vizinhas. Isso porque os turistas que ficam mais tempo acabam deixando mais dinheiro para a cidade. Eles aproveitam mais o que ela tem para oferecer sem pressa, valorizando um pouco mais a cultura local e tendo mais empatia pela cidade.

Essa atitude de limitar por dia é adotada em muitos lugares, como parques ecológicos (por exemplo, Ibitipoca em Minas Gerais e Macchu Picchu no Peru) e tem se mostrado efetiva. 

A nossa mensagem para você, navegador:

Não seja esse turista desrespeitoso!

Quanto mais o turismo se populariza, mais pessoas tem transitando entre destinos. E isso é uma coisa maravilhosa! Não só pelo crescimento e desenvolvimento local, mas também pela visão de mundo que viajantes adquirem.

Vejo muitos blogs compartilhando mensagens incríveis com seus leitores sobre o que não é legal fazer em uma viagem. Fico muito feliz em ver que o turismo consciente está ganhando espaço na internet e na cabeça dos nossos leitores. Foi pensando nisso que decidi colocar em palavras a minha contribuição! O objetivo deste post é se juntar a tantos outros que estão tomando voz na escrita sobre o turismo consciente.

Por isso, nós do Diário de Navegador chamamos você, navegador,
a se juntar à embarcação do turismo consciente!

Tenha respeito e carinho pelos lugares que você conhece. Lembre-se sempre que naquele lugar que talvez você não volte, moram pessoas que chamam aquele lugar de lar. Vamos praticar cada vez mais o turismo consciente!


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